A nova pessoa que nasce depois de um câncer

Silhueta de mulher com os braços levantando em uma paisagem de entardecer.

Pacientes falam das transformações que a doença provoca e a força do compromisso pessoal, tema de abordagem da campanha mundial “Eu Sou e Eu Vou”.

Sabe aquela roupa nova que fica guardada esperando uma ocasião especial? E aquele vinho que aguarda o momento perfeito para ser apreciado? Um dos “efeitos colaterais” do câncer em muitos pacientes é mudar completamente essa forma de ver o mundo. Foi o que aconteceu com Marcos Fernando Flores Geremia, Charif Neto e Wanda Pinheiro, que entre seus relatos de luta contra o tumor revelam as importantes lições que a doença trouxe para um futuro melhor.

“Vou usar a roupa nova agora, vou tomar o vinho especial. Vamos comemorar o hoje”, diz Geremia, explicando a essência de sua forma de viver e ver o mundo após um diagnóstico de glioblastoma em 2009 e algumas cirurgias no cérebro para vencer o tumor. A doença foi descoberta depois de uma convulsão enquanto jogava futebol na praia. “Eu comecei a me sentir mal, suar, salivar bastante e desmaiei”, recorda Geremia, que tinha então 26 anos e foi levado ao hospital.

Recobrou-se a tempo para perceber que o diagnóstico do médico, de que ele tinha sofrido um AVC, não estava certo. “Eu sou fisioterapeuta e me dei conta de que não era aquilo”. Uma consulta ao neurologista revelou o câncer e no dia seguinte ele fez a primeira cirurgia. O paciente diz que o médico só tirou um pouco do tumor, pois temeu deixar sequelas.
Para dar sequência ao tratamento, deixou sua cidade, Caxias do Sul, em Porto Alegre, para consultar oncologista em São Paulo, onde ficou duas semanas fazendo exames. Passou por uma nova cirurgia, para tirar tudo. No dia seguinte, a ressonância de controle mostrou que ficou um pouco do tumor. “O médico falou: ‘já está com a cabeça aberta, vamos tirar o finalzinho’. No dia seguinte abriu de novo e tirou tudo”, conta, recordando a decisão imediata. “É preciso ter coragem; não dá pra ter medo. Tem que enfrentar. Precisa fazer? Vamos fazer”.

Com a mesma atitude decidida ele fez três meses de radioterapia em São Paulo e três anos de quimioterapia, quando o tumor voltou em 2015. Agora, faz acompanhamento a cada quatro meses. “A gente não sabe o dia de amanhã. De uma hora para outra pode voltar, posso ter que fazer cirurgia. Estou aproveitando a minha vida. Eu trabalhava muito, hoje não trabalho tanto. Quero chegar às 18 horas em casa, tomar chimarrão, ir para a academia, fazer exercício, ficar com a minha família. Quero passear e viajar muito com minha esposa, que era minha namorada havia duas semanas quando eu tive o diagnóstico e ficou ao meu lado, como meus pais. Valorizo muito as pessoas que me ajudaram. Parece que as coisas vêm como uma lição de vida”.

Força da atitude

A atitude de enfrentamento e combate ao câncer é uma das bandeiras defendidas pela ação do Dia Mundial do Câncer, celebrado 4 de fevereiro, liderado pela União Internacional para Controle do Câncer (UICC), da qual o Instituto Vencer o Câncer é um dos membros associados. O tema da nova campanha de três anos, que tem início em 2019, faz um apelo ao compromisso pessoal e representa o poder das ações para reduzir o impacto crescente do câncer: “Eu Sou e Eu Vou”.

Referindo-se ao tema, Charif responde prontamente para onde vai. “Estou indo para a vitória. Cada dia é uma vitória”. São muitos dias de vitória desde 2004, quando foi diagnosticado com câncer de próstata bastante avançado. “Um dos fatores para a cura é correr”, diz, lembrando que soube do tumor em uma sexta-feira e na segunda já estava na mesa de cirurgia. Exames posteriores demonstraram que ainda havia células de câncer na periferia da região. O paciente foi submetido a tratamento à base de hormônio e fez 33 sessões de radioterapia. Depois de quatro anos, descobriu um princípio de metástase óssea. Passou a tomar aplicações e fazer acompanhamento de três em três meses. “De um ano para cá a metástase regrediu”, comemora. “Estou muito bem. Sigo vida normal. Trabalho 12 horas por dia e viajo bastante”.

Depois da doença, passou a dedicar-se mais à atividade física – não praticava regularmente antes. Conta que também ficou mais religioso: pratica sempre e vai aos sermões. Ele atribui sua vitória diante do câncer a três fatores: “Fé em Deus primeiro; os médicos e a Medicina e a prática de atividade física. É o trio vencedor, junto com o apoio da família”. Charif destaca também a ação rápida assim que soube do diagnóstico e de seguir sistematicamente o tratamento. “Hoje me sinto tão bem, que quando o médico me pergunta como estou, digo a ele que nem sei porque estou ali. E questiono se preciso tomar aquelas injeções. Ele diz que sim, porque o tratamento precisa ser rigoroso”. E o paciente segue à risca: “Atitude faz toda diferença”.

Vai com fé

Wanda também segue todo dia para a vitória: “Eu coloco um salto agulha e vou”, brinca, referindo-se ao enfrentamento da neuropatia severa, que não lhe não permite sentir os pés da panturrilha para baixo, consequência do tratamento do mieloma com que foi diagnosticada em 2008. Ficou muito tempo com dor óssea lombar, anemia e cansaço, visitando vários especialistas sem ter um diagnóstico conclusivo, tratando como anemia e fibromialgia. “Para a dor lombar, mandavam entrar na academia, sair da academia, fazer pilates, sair do pilates. O cansaço eu achava que era porque estava chegando aos 50 anos, cansada pele idade. Fiquei assim por quase cinco anos”.

Teve o diagnóstico porque seu ortopedista é casado com uma hematologista. “Eu nem sabia o que era mieloma múltiplo. Quando recebi o diagnóstico, senti um impacto muito grande. Eu fiquei em uma cápsula e o mieloma em outra e fui tratando não como um câncer que ia me matar. Não senti tristeza, revolta, alegria, nada. Só perguntava o que precisava fazer – e fazia. Esse processo me defendeu da notícia. Só fixei que eu era uma paciente jovem que ia fazer transplante autólogo e ia ficar boa. Ia ser curada”.

A quimioterapia provocou fortes efeitos colaterais – como a neuropatia, que a levou ao hospital várias vezes. Outro medicamento causou diabetes tipo 1 enquanto fazia o tratamento, precisando de aplicações de insulina. “Eu não aguentava mais. Estava deformada, inchada, não tinha um pelo no corpo e sentia tanta fraqueza que não conseguia andar. No auge da dor, pedi a Deus um sinal verdadeiro ou que Ele me levasse. Abri a Bíblia de maneira súbita e desesperada”. O sinal veio no provérbio 3: ‘… guarde no coração os meus mandamentos, pois eles prolongarão a sua vida por muitos anos… Isto será saúde para o teu âmago, e medula para os teus ossos’.

Ela entendeu que Deus lhe daria anos de vida se confiasse Nele. “A partir daí, criei alma nova. Fui para o transplante de maneira suave, não senti mais nada. Minha vida nesses 10 anos é totalmente normal, como se nada tivesse”. Ela seguiu com o tratamento, faz rigorosamente o acompanhamento e sente-se feliz com as transformações em seu interior e que se refletem no exterior. “Eu era desconectada, trabalhava como workaholic, não tinha tempo para nada, nem para o lado espiritual nem para os meus filhos. Hoje me concentro nos verdadeiros valores da vida e tenho uma fé inabalável”.

Wanda conta que ficou mais sensível às sensações, à natureza, mais observadora em relação às outras pessoas e parou de cobrar resultados tanto dela mesma quanto dos filhos. Também melhorou a alimentação e pratica atividade física. Continua bastante ativa, mas seu tempo é dedicado em grande parte a ajudar outros pacientes oncológicos. “Descobri que é possível ser um sucesso sem perder a delicadeza, sem deixar de olhar a beleza da vida. Digo que é preciso viver o hoje. Sempre faço de um limão uma limonada. Nasci assim e aprimorei a técnica depois do câncer. Tudo é melhor quando você aprende que o azedo pode ser doce”.

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