Menos é mais

Todo o mundo deveria ser feliz. Não por aquilo que possui ou deixa de possuir – isso não tem nada a ver –, mas pelo simples fato de que a vida é uma dádiva e que passa muito rápido. E não se engane: quanto mais nos satisfazemos com as coisas pequenas, menos complicadas e concorridas, mais chances temos de desfrutar o melhor da vida. Experiência própria.

Estava lendo a história de um empresário muito rico, que num determinado momento da vida abandonou os negócios, fechou algumas empresas, dividiu os bens, pegou a mulher e se mudou para uma praia. Engana-se aquele que acha que ele foi morar em alguma mansão num lugar paradisíaco com tudo a seu favor. Não foi. Optou por uma casa confortável, mas numa praia pequena e isolada, sem qualquer luxo. E afirma: “Onde eu possa ouvir o barulho das ondas do mar batendo nas rochas, sendo acordado pelo som das gaivotas em vez das buzinas dos carros e das serras das construções”. Pensei: “O que leva uma pessoa a tomar uma atitude tão extrema?” Não é um homem idoso, não está doente, tem o dinheiro que quiser para gastar, uma família construída, é considerado um grande empreendedor. Mas nada disso foi suficiente para mantê-lo num status de luxo. E, diante de uma argumentação como a minha, o homem foi o mais objetivo possível ao revelar: “Simplesmente, cansei de complicar a vida. Ela está passando”.

Fiquei analisando e cheguei à conclusão de que a atitude ousada daquele grande homem de negócios é a medida certa da felicidade. Porque até para ser simples hoje em dia anda difícil. São tantas informações e abusos de consumismo que atordoam qualquer ser humano. As pessoas têm uma necessidade absurda de se mostrarem bem-sucedidas, ricas, lindas e realizadas. Admiro quem chega a um ponto da vida em que a atenção e o amor da família, o prazer de estar junto, a convivência com amigos verdadeiros, a mesa farta, um cachorro fiel e um jardim para cuidar causam a sensação de vida realizada.

Conquistar grandes coisas na vida não é errado, claro que não. Mas fazer disso uma meta e ir atrás, custe o que custar, com certeza trará consequências. A escolha por um estilo de vida menos complicado e mais simples, por uma qualidade de vida que fuja aos padrões impostos, depende da nossa consciência e de opções por outros valores. E que certamente vão na contramão do dinheiro, do luxo, da ganância, do exibicionismo, do consumismo.

Não sou exemplo de nada, mas já tem alguns anos que me enquadrei nesse padrão de vida e admito que muitas coisas mudaram para melhor. Não se importar com modismos é a primeira coisa que a faz uma pessoa mais leve. Como um telefone celular, por exemplo. Desde que ele funcione, está ótimo para mim. Não preciso mais do que isso para me comunicar. Em contrapartida, vejo a necessidade das pessoas exibirem os celulares tão sofisticados e caros que se assemelham a microcomputadores. E a dificuldade para pagá-los! Essa avalanche de informações de que somos alvo diariamente nos torna reféns desse consumismo doentio. Essa corrida disparada pelo melhor e mais caro é totalmente desnecessária. A felicidade não está nisso. O desapego torna a vida menos elaborada, menos comprometida, menos pesada e, consequentemente, menos triste.

A gente pode ser feliz com menos: menos requinte, menos exibição, menos grifes, menos satisfação, menos regras, menos concorrência, menos aborrecimentos, menos desperdício, menos exageros, menos tudo. Isso independe de ter ou não dinheiro. E a gente pode ser feliz com mais: mais qualidade de vida, mais família reunida, mais sono, mais saúde, mais simplicidade, mais aconchego, mais atitudes generosas, mais companheirismo, mais leveza, mais paciência. Não se trata de pão-durismo, mas de mudança de valores, como aquela que o empresário bem-sucedido teve.

Escolher ter uma vida mais simples requer ousadia. Afinal, é ir na contramão de uma sociedade contemporânea e de tudo que ela sugere. Trata-se de um processo que pode começar aos poucos. A gente se reinventa e começa a observar coisas tão mais significativas no dia a dia. Ter uma vida simples não tem nada a ver com perdas. Creio que tenha a ver com ganhos e certamente é a atitude mais corajosa que uma pessoa possa ter.

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